Brilhe a Estrela Austral
Eu tento fazer o movimento de compreender o artista que não se posiciona. Seja porque depende de encomendas para viver, seja porque tem um público diverso, seja porque acha que arte e política não caminham juntas. Tento, mas não consigo. Pois entendo que nosso estar no mundo é político, e desde sempre arte foi um campo político em disputa. Hoje, por exemplo, já existem vários estudos que reforçam que as pinturas rupestres foram feitas, em sua maioria, por mulheres, mas como por muitos anos os pesquisadores eram homens, essa possibilidade sempre era descartada. Então, quem detém a narrativa, detém a história e o direito de escolher o que merece ou não ser contado.
Além de artista, sou professora. Vivi o momento político de 2018 dentro de uma sala de aula de escola pública, vivi a pandemia e o ensino remoto, e todas as consequências que isso trouxe para a educação nos anos posteriores. Presenciei como as políticas públicas (ou a falta delas) podem impactar na vida de um estudante e sua família.
Se eu andar um pouco mais para trás, posso retornar ao ano de 2005, quando entrei na universidade pública e sequer asfalto havia dentro do campus. Presenciei a expansão universitária com o REUNI, as bolsas de estudo chegando, os programas de pós-graduação stricto sensu ao alcance da comunidade. E vi tudo isso desmoronar como um castelo de cartas. Hoje, quando me perguntam como vai o doutorado, eu respondo que vai bem, mas no meu íntimo sempre perpasso uma trajetória de mais de vinte anos sendo testemunha ocular do processo educacional brasileiro.
Indo mais atrás ainda, eu fui a criança periférica, moradora de um dos bairros mais antigos da cidade, e também uma das zonas de sacrifício mais famosa, devido à poluição causada pelo distrito industrial e suas fábricas de fertilizante. Com uma família toda da classe trabalhadora, sem nome ou posição social para garantir estabilidade na vida.
Por tudo isso e por muitas outras coisas, eu me recuso a depositar meu voto num projeto que vai contra a nossa soberania nacional, contra a classe trabalhadora, contra a arte, contra a educação.
Ao som do mar e à luz do céu profundoDevolver tudo ao povo da AméricaE me tornar o sol do novo mundo
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Hekate Chrysostephanos
Chrysostephanos: coroada de ouro, coroada com esplendor.
Todo agosto tento fazer um trabalho dedicado à Hekate, desde o post de 2022, ainda muito acessado, principalmente quando essa data se aproxima. Há exatamente um ano, eu publicava Hegemonen e também um dos registros mais fofos da Mimi "me atrapalhando" enquanto desenhava. Hoje, fazem dois meses da partida dela, e não consegui fazer uma arte específica ainda, mas voltei a criar: artes, textos, postagens. Não sobre a Mimi, mas a morte dela me despertou essa necessidade, talvez pela urgência do aqui e agora.
Ainda quero voltar a fazer aquarelas e trabalhos tradicionais, com lápis e lápis de cor. Enquanto isso, vou aproveitando a facilidade que é desenhar no iPad. Para esse 13 de agosto, escolhi o epíteto Chrysostephanos, mas somente depois de ter começado a ilustração. Ao desenhar os cabelos, percebi que uma coroa dourada ficaria muito bonita em contraste com a figura preto e branco. Recorri ao glossário da Márcia C. Silva e lá estava. A coroa dourada associada a Chrysostephanos é a de louros, mas aqui tomei a liberdade de representar uma mais bruta, como se fosse de ouro maciço, martelado para dar acabamento.
No início de tudo, Hécate fala:
Quando o Universo atravessou os umbrais da existência
Em um fogo cósmico brilhante como um raioEu, Hécate, testemunhei o primeiro nascimento
Eu, Hécate, observava de soslaio
Enquanto a escuridão se tornava firmamento
Enquanto "O Nada" paria "O Tudo", que ainda haveria de ser
Eu existi entre os dois, caótica, poderosa, potente
Sol e Lua, Terra e céus, Hades e o Olimpo ainda a nascerExisto no entremundos, no crepúsculo, e no Sol poente
Sou o sopro que deixa seus pulmões vazios
Sou o grito desesperado do recém-nascido
Moro na juras de amor sussurradas ao ouvido
E nas lágrimas da verdade, ricas em sal
Pois sou a zona cinzenta entre o bem e mal
Ah... mas o que se criou há de se destruir
Tudo é cinza, e reino absoluta. Não há mal ou bem
Meu é o reino que não tem Rainha ou Rei
Meu é tudo o que não pertence a ninguém
Como portadora da chave, eu permaneci e permanecerei
E quando o Universo deixar de existir, aqui estarei.Do livro: A Magia de Hécate: uma roda do ano com a rainha das bruxas
O Instagram rotulou minha arte como IA
Um ateliê é mais que um espaço: sobre construir um sentimento por mais de 20 anos
Libertem a mulher louca
carta para a mimi
oficialmente mimi, de mimosa. bibiti, bibita, chimimi, chimima, biti, pois não conheço gato que não tenha uns 50 nomes inventados ao longo da vida.
apareceu na rua da casa dos meus pais, por volta de 2019. um ano antes, tínhamos resgatado a luna na mesma rua. vinha até a porta da casa disputar comida junto com os cães e as pombinhas, junto à sua provável mãe felina. chamou atenção por ser tão linda, o longo rabo peludo. com o tempo, a mãe sumiu. a “gatinha” ficou.
“gatinha, vai pra tua casa!” dizíamos nos dias frios, nos dias chuvosos, nas noites escuras. ela seguia na porta. eu querendo pegar, minha mãe irredutível: já tínhamos a luna.
a gatinha apareceu roliça. prenha. seguia na rua. mas ela tem casa, é daquelas guriazinhas… que foram embora. a gatinha ficou. prenha.
numa noite chuvosa, ela pediu pra entrar. minha mãe não abriu. anos depois, ainda se culpava por isso. no outro dia, no alpendre de uma casa vazia, lá estava a gatinha com seus três filhotes. cheguei do trabalho, peguei a chave da casa na imobiliária e levei a gatinha e os filhotes. naquele momento sussurrei pra ela: tu nunca mais vais sofrer.
ela vai se chamar mimi, pois é muito mimosa. ela fica, os filhotes vamos doar. os filhotes ficaram: a cabeçuda (yoda) e os thundercats tygra e cheetara.
construímos nossa casa e viramos uma família: antonio, eu, sushi, mimi, yoda, tygra e cheetara. por seis anos fomos essa família.
comida, carinho, lareira, cama. mimi dormia em cima de mim ou ao meu lado, de conchinha, embaixo das cobertas. desenvolvi posições para conseguir me virar e dormir com ela ali, que nem fazia menção de se mexer. quando o frio apertava, ela pedia pra entrar embaixo das cobertas, deitava no meu braço, fazia pãozinho na minha barriga.
alternava entre o meu colo e o do antonio. pela manhã, ao acordar, eu gostava de encostar na barriguinha dela, sentir o cheirinho “de dormida”. fazia sonzinhos e dava tapinhas supersônicos para brincar. foi ficando menos arisca, mais relaxada.
eu olhava pra mimi e dizia “eu te amo” todo dia. achava ela tão linda e tão perfeita. os olhos, o narizinho, o pelo. falava o quanto ela era linda e perfeita.
no meu íntimo, ela era a minha criança. o mais próximo do instinto materno que passou pelo meu ser. se eu tivesse uma criança, queria que fosse exatamente como ela.
no meu íntimo, ainda, eu tinha um medo irracional de perder a mimi. tinha medo de doença, da velhice. me achava totalmente despreparada para a hora da despedida.
a mimi tá molinha, disse o antonio. foi numa quarta à noite. ela não saía da mesma posição. suspeitei da pancreatite, que ela já teve. não dormi naquela noite. ela ficou ronronando ao meu lado, mas não dormiu também. duas semanas antes, o yoda teve infecção urinária e ficou internado. eu estava apavorada. no dia seguinte, levamos ela no veterinário. durante a coleta de sangue, uma crise. algo muito sério.
água na pleura. cardiopatia hipertrófica. grave. internação, exame, drenagem. yoda sem conseguir urinar novamente. os dois internados. no retorno pra casa, mimi estava diferente. errática, não queria deitar comigo, não respondia, se atirava no chão frio.
o quadro não melhora. antonio, a mimi não está mais aqui. choro. internação. era sábado. quatro dias.
a temperatura baixíssima, o coração vacilando. progressão: óbito.
minha filha, eu te amo. se for pra ficar, reage. se não, vai em paz, na luz, tu foste muito amada, eu te amo muito, não quero te ver sofrer. não sofre. ela aperta meu dedo com a patinha.
e como a chama de uma vela, o coração da mimi parou. aos oito anos. ela seguia perfeitinha. tudo nela. parecia que estava dormindo. todos os meus medos se tornando realidade. a minha criança foi embora.
não consigo criar arte pra ti nesse momento, meu amorzinho. eu queria muito. mas não consigo. não aceito. tínhamos tanto ainda pela frente. no laudo dos teus exames, a perfeição do teu corpinho, exceto teu coração. doença silenciosa, que te levou em tão rápido, tanto que os remédios não ficaram prontos a tempo.
a casa está estranhamente silenciosa. nós aguardamos a chegada das tuas cinzas. não consegui te enterrar. pela primeira vez falei em voz alta: eu quero ficar com as cinzas dela, e de todos eles quando chegar a hora, pois quando eu morrer, também quero ser cremada, e aí sim, misturem nossas cinzas para que possamos ficar juntos.
dia 20 farão sete dias da tua partida. ainda chamo teu nome, choro e me desespero. poucas pessoas entendem esse luto, mas as que entendem me dão forças e apoio suficientes. aos 41 anos, pedi: eu quero a minha mãe. não suportei tua partida. perdi meu pai, perdi minha filha, minha criança.
meu amor, me perdoa por não conseguir transformar tua perfeição em arte. sou muito limitada. mas espero, do fundo da minha alma, que no meu regresso ao útero da grande mãe, te reencontre lá. e, mais uma vez, possa gritar: biiiiitiiiiiiiiiiiii
com amor, lidiane.
Duplo
Esse trabalho começou a ser gestado em janeiro desse ano, e eu demorei exatos cinco meses para finalizá-lo. Fui fazendo tudo muito aos poucos, sem pressa. Passei semanas sem sequer olhar para a folha. No início, eu nem tinha um conceito claro do que ia fazer. Seria somente a figura da parte superior, apoiada numa superfície, em tons de azul e roxo, como se fosse um crepúsculo. Depois, pensei que a superfície poderia ser espelhada. Por fim, tive a ideia de projetar a figura abaixo, como se fosse um reflexo, mas não um reflexo comum. Aqui, as figuras iam se fundir em algum ponto, e o que era apenas uma imagem refletida, passaria a ser um duplo.
Os tons de azul foram substituídos por vermelho, pois tenho um quadro enorme na parede que é nesses tons, e peguei a paleta de lá. As duas figuras têm diferenças sutis entre uma e outra, elas são, mas ao mesmo tempo não são a mesma coisa. E os cabelos se fundem entre o que é real e o que deveria ser reflexo.
Não são gêmeas, não são reflexos, são duplos. Em alemão, a palavra doppelgänger designa o fenômeno desse sósia "do mal" como um ser fantasmagórico, que tenta roubar a vida do outro. Mas não era no doppelgänger que eu estava exatamente pensando enquanto desenhava, mas sim na nossa capacidade individual de encarar os nossos duplos, sejam eles bons ou maus, e lidar com suas consequências.
Materiais utilizados
- Papel Concept Hahnemuhle 220g;
- Lápis de cor aquarelável Pentel;
- Marcadores Uni Pin ponta pincel, Uni Ball dourada e Posca branca.
O redemoinho







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